Uma joia escondida chamada Holmes of Kyoto

Por Williams Gomes em

Futabasha / Studio Seven / Divulgação

Não importa para quantos especialistas de uma área de estudo você pergunte, a formula correspondente ao alto grau de conhecimento destas pessoas será a mesma: Um pequeno e ocasional contato com um elemento ou obra da área, que apesar de simples para muitos, foi o que despertou naquele indivíduo o interesse em aprofundar-se no assunto em questão.

E se você, caro leitor, faz parte do crescente grupo de pessoas que admira e pretende conhecer mais sobre o mundo oriental e os seus povos milenares, Holmes of Kyoto (Kyoto Teramachi Sanjou no Holmes) traz um leque de referências históricas e culturais capaz de despertar (ou como no meu caso, reavivar) o interesse em mergulhar nos conhecimentos a respeito das festas, dinastias, pinturas e tudo mais que caracteriza a cultura japonesa que vemos hoje.

A obra que se origina da série de romances de mistério iniciada em 2015 por Mai Mochizuki, ilustrada por Shizu Yamauchi e que em sua animação fica sob responsabilidade do estúdio Seven, conta basicamente, sobre a ida de Aoi Mashiro à loja de antiguidades e avaliação “Kura” e suas consequências. Aqui vemos como a estudante conhece o jovem e misterioso Kiyotaka Yagashira (Holmes), atendente e filho do dono da loja que além desses atributos é um ótimo detetive -ainda que não aceite o título.

Após ingressar a loja como assistente – não, isso não é spoiler, – Aoi começa a conhecer mais dos fantasmas do jovem atendente e, de quebra, acompanha o jovem nas eventuais investigações solicitadas. Mas como a produção do estúdio Seven pode nos mostrar tanto sobre a cultura japonesa e mais especificamente a cultura presente na cidade de Kyoto? Elementar meu caro Watson, siga a leitura abaixo e descubra por você mesmo.

 

A cultura nas luzes dos festivais

Dentre alguns pontos a serem levantados aqui sobre o anime, precisamos falar sobre como o mesmo, em cada episódio, faz questão – e isso veremos com frequência – de fazer jus ao nome da cidade presente em seu título. Isso porque, alguns dos primeiros assuntos abordado no anime são – além do jeito dos garotos de Kyoto- os festivais (O Aoi Matsuri (葵 祭), Gion Matsuri (祇園祭) e outras programações culturais da cidade (Yoi- yoi -yama), o que é interessante de se observar, se tratando de uma informação realista, pouco abordada em outras produções e que consegue nos conectar ainda mais com o anime.

Reprodução.

 

Viajando por Kyoto

As locações apresentadas em Holmes of Kyoto também são outro destaque a parte, no anime não só conhecemos vários pontos da Kyoto antiga, que permanecem durante o passar das décadas e que são motivo de orgulho de muitos japoneses (como o Monte Kurama e o templo Genko-na) mas também vemos lugares mais contemporâneos e encantadores, que certamente são destinos de muitos turistas ao chegarem à cidade (como o mercado de rua Shinkyogoku)

 Arte e história

E como todo passeio turístico que se prese é acompanhado de vislumbres da história local e o que fora produzido artisticamente na época, o anime também nos mostra estes elementos dentro de sua trama. Em cada episódio somos apresentados a relíquias das mais diferentes épocas da história local (e até exterior) e seus artistas por trás delas como hokusai e suas famosas pinturas, a cerâmica de Shigaraki ou ainda, as tigelas de Raku. Os próprios diálogos são uma fonte de informação relevante, ao passo que, vez ou outra, são mencionadas épocas da história local, que para um espectador curioso sobre o tema, é um prato cheio para iniciar suas pesquisas.

E ainda dentro da produção artística, vale ressaltar também a escolha certeira tanto do tema de abertura quanto de encerramento (AOP – Koi ni Saku Nazo, Hara Hara to e Wagakki Band – Hosoyuki, respectivamente), aonde ambas as músicas mesclam em suas produções a sonoridade antiga provinda dos instrumentos musicais mais antigos da cultura oriental e a aceleração instrumental contemporânea presente no uso dos instrumentos ocidentais. O toque perfeito para nos transportar para outro lugar ou época.

 

Considerações finais

Apesar de não impactar logo de cara em seu primeiro episódio, o anime, ainda assim nos envolve na atmosfera misteriosa e magnética de um dos seus protagonistas. E isso é tudo o que a obra precisa para galgar nossa atenção nos episódios que se seguem. Pois a partir daí vemos todos os tópicos mencionados anteriormente somados a pequenos mistérios que, sinceramente, desconheço saber com exatidão o grau de dificuldade apresentado, uma vez que, obras que trabalhem o raciocínio lógico para resolver mistérios não são o meu forte (mesmo conseguindo resolver um dos mistérios antes de sua resolução).

O romance do casal protagonista é, de fato, um dos pontos fracos no anime, visto que enquanto mergulhamos com a dupla em vários casos ricos em informações de mundo, o romance – instigado desde a abertura do anime – pouco tem espaço para ser desenvolvido entre a dupla. O que mais vemos, neste caso são as questões com os ex’s sendo resolvidas e alguns flertes e expectativas que acabam não dando em nada (um gancho para a segunda temporada talvez). O antagonista da trama e as consequências de seus atos (tal qual de outros personagens) também são uma negativa a serem apontadas, uma vez que, até um falsificador de obras, depois de realizar vários trabalhos ilegais, pode não apenas sair impune, como andar entre colecionadores de arte.

Mas entre ônus e bônus, Holmes of Kyoto, no final de tudo possui um saldo bastante positivo em sua conta. Enquanto alguns pontos podem ser relevados ou melhorados em uma segunda temporada, a quantidade de referências artísticas e histórica da bela Kyoto apresentada ao longo dos 12 episódios, é algo de se encher os olhos para quem gosta do assunto.

Desta forma, se o leitor deste texto for um admirador da cultura oriental, fica aqui o convite em conhecer a trama, que assim como uma bela joia cheia de história em um antiquário Kura, encontra-se escondida há muito tempo entre os vários animes de um catálogo para quem lhe encontrar.

 

Holmes of Kyoto possui apenas uma 1ª temporada e está disponível no brasil pela Crunchyroll.

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