O poder da escrita em Violet Evergarden

Por Williams Gomes em

Kyoto Animation / Divulgação

Antes de tudo, vale ressaltar, que quando me refiro ao termo “escrita”, não estou necessariamente, me dirigindo a uma produção literária tradicionalmente manuscrita, uma vez que o próprio anime em questão aborda este processo por meio de máquinas de escrever – o que pode ser algo bem interessante a se pensar, se você notar que praticamente todos os textos hoje são digitados.

Bem, eu não sei você, caro leitor. Mas, ao menos pra mim, escrever, às vezes, pode ser uma tarefa bastante desafiadora. Seja para falar de um assunto específico com alguém no qual você admira bastante, ou na hora de elaborar um currículo, produzir um trabalho da escola, na construção do seu TCC da faculdade, ou mesmo de um texto para um site especializado em animes. Seja como for, escrever pode ser uma experiência apavorante a uma primeira vista. No entanto, caso você resolva olhar mais de perto, vai perceber que esse medo nada mais é, do que uma insegurança, que logo deixa de existir, a partir do momento em que você resolve iniciar o que se propôs a fazer. E quando esse momento acontece, você poderá perceber que a escrita, pode ser algo libertador.

E o que isso tem a ver com Violet Evergarden? Bem, caso você ainda não tenha percebido, esse é, basicamente, o pano de fundo de todo o anime em questão e, consequentemente, de seu filme. Mas vamos começar do início.

Kyoto Animation / Divulgação

Caso você tenha caído de paraquedas neste texto, saiba que Violet Evergarden (ヴァイオレット・エヴァーガーデン Vaioretto Evāgāden) é uma light novel japonesa de 2015 escrita por Kana Akatsuki, ilustrada por Akiko Takase e que prontamente, em 2018, foi adaptada pelo estúdio Kyoto Animation para um anime contendo 13 episódios,

Na animação podemos conhecer Violet, uma garota que após ficar órfã durante uma guerra, é “dada de presente” ao major Gilbert Bougainvillea para que este, a use como uma espécie de arma durante suas missões na guerra que assola o país. Porém, a relação dos dois personagens acaba por tornar-se mais próxima do que se esperava e, durante uma reviravolta na trama, esse contato se torna bem mais complexo do que antes (principalmente para Violet).

Com isso em vista, temos então, uma trama dividida em duas linhas, ambas após uma breve passagem de tempo. A primeira diz respeito a personagem principal, lidando com suas próprias questões internas e referentes a sua história com o major. Somando-se a isso temos uma segunda linha, onde Violet percorre o país ajudando pessoas que solicitam o seu, agora, serviço como autômata de auto memórias, o que seria, basicamente, uma profissional responsável por escrever cartas conforme o desejo de quem lhe contrata, geralmente pessoas de pouca ou sem instrução alfabética.

Kyoto Animation / Divulgação

Você pode me perguntar: “Certo. Mas aonde está o interessante disso tudo?”. Bem, o que torna esse anime tão interessante, seria precisamente o fato de apresentar as diferentes situações aonde o simples fato de escrever (ou datilografar, no caso da história em questão) pode desencadear as mais diversas reações e sentimentos em alguém.

São, principalmente, nos episódios aonde a personagem protagonista viaja pelo país a serviço da empresa para qual trabalha, que acompanhamos os exemplos mais tocantes de como colocando os sentimentos em uma folha de papel, é possível, compreender e conseguir lidar com a perda de alguém tão querido seja em uma homenagem, em uma viagem, ou apenas vivendo a própria vida; ou ainda, perpetuar a própria memória no coração daquelas pessoas que estarão vivendo mesmo depois que você eventualmente partir.

E sim, caro leitor, caso você já possa ter percebido, a morte está bastante presente nessa obra. E ela é um constante gatilho para que os personagens da trama possam iniciar a produção de suas cartas. Mas não se engane achando que a superação de um luto é a única utilidade de uma produção escrita aqui.  Violet Evergarden nos mostra que através dessa ferramenta, podemos ainda expressar um amontoado de sentimentos reprimidos que, de uma forma bem terapêutica, nos ajuda em nosso próprio amadurecimento, a entender quem somos enquanto indivíduos, o que sentimos, e qual é o nosso propósito nesta vida. O que é bastante relevante, se analisarmos como a atual sociedade, constantemente nos bombardeia de cobranças e um posicionamento certeiro a respeito de quem somos e o que podemos oferecer desde muito cedo.

Por falar em oferecer, vale destacar que, se o leitor (assim como eu) é do tipo de pessoa que se deixa levar pela ideia de acompanhar um anime a partir do seu visual, bem…talvez Violet ganhe alguns pontos com você. Isso porque a produção possui em sua animação e em seus traços uma qualidade impecável, deixando, não apenas os personagens, mas as próprias ambientações, com uma estética “limpa” e contrastante com um visual que lembra muito vagamente o estilo steampunk e que se torna bastante atrativa de se admirar.

Resumo da ópera

Kyoto Animation / Divulgação

Se você, da mesma forma que este que vos escreve, nunca foi muito bom em verbalizar o que sente, não confia ou simplesmente não tem com quem compartilhar tanta bagagem emocional acumulada, assista Violet Evergarden, se inspire e experimente transpor seus problemas e questões pessoais em uma folha ou duas. Poderá não ser a solução da maioria das suas aflições, mas pra quem eventualmente está perdido em si, esse pode ser um ótimo norte pra começar a resolver a vida. Sem mencionar que nunca se sabe quem ou o que você vai encontrar depois de transpor no papel aquilo que habitava no seu coração. Eu sugiro a escrita, pois além de ajudar nesse processo terapêutico de autodescoberta, contribui no desenvolvimento intelectual de forma significativa. Mas é obvio que existem outras formas de extravasar e se entender, seja pela pintura, pelo esporte, música, enfim…. E procure um psicólogo! Saúde mental existe, é séria e nunca esteve tão em foco como agora.

E convenhamos que ninguém precisa entrar numa guerra e perder os dois braços pra começar uma jornada de autoconhecimento pra no fim, saber o seu lugar no mundo.

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