Nana: lições, decepções e copos de morango

Por Williams Gomes em

Madhouse / Divulgação

É exatamente isso que você entendeu, caro leitor, após 13 anos da última exibição do anime, eu pude conhecer as nanas e todo o seu universo punk-dramático. Mas será que valeu a pena adentrar nessa história depois de tanto tempo após o seu “fim”?. Prepare seus acessórios da Vivienne Westwood e confira o resultado dessa minha aventura na leitura a baixo.

Mas caso você esteja se perguntando, do que raios eu estou falando, vamos a um resuminho básico: duas garotas, com o mesmo nome (Nana), decidem se mudar para a mesma cidade, no mesmo dia e no mesmo trem. Após se conhecerem na viagem, separam-se, e como uma brincadeira do destino, se reencontram dias depois tentando alugar o mesmo apartamento. Segura de si e dona de um estilo punk invejável, Nana Osaki é a que decide buscar na cidade grande o sucesso através da sua música. Diferentemente dela, Nana Komatsu, a típica – E extremamente frágil – garota do interior, é aquela que sonha em viver pra sempre com o homem dos seus sonhos, ter uma linda família e que, por conta disso, resolve mudar-se para Tóquio a fim de morar junto com o namorado. As duas se tornam colegas de apartamento, e a partir daí vemos como seus planos se desenvolvem na reluzente cidade de Tóquio.

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Bom, dito isso, vamos logo tirar o elefante branco da sala e dizer que sim, vale a pena dar uma chance a trama de Nana e todas as suas reviravoltas. Mas não se engane, querido leitor, nem tudo são flores nas aventuras das nanas e nem eu pretendo tecer apenas elogios a esse anime.

É bem verdade que pra quem já assistiu o anime, das duas protagonistas, Nana Osaki é a que mais nos cativa com sua segurança e personalidade forte – mesmo existindo uma fragilidade que ela pouco deixa a mostra para seus colegas. Mas não sejamos ingênuos, caro leitor, ainda que bastante irritante com os seus choros frouxos, a romântica Hachi (apelido dado a nana komatsu, no anime) é a responsável por carregar uma boa parte do drama da série nas costas.

Chega a ser irônico, como uma personagem tão superficial, à primeira vista, acaba sendo a responsável por trazer a serie questões bastante profundas. Claro que a Nana Osaki traz consigo assuntos relevantes como exclusão social e abandono familiar, mas é através da perspectiva da Hachi aonde podemos notar que as pessoas mais simpáticas podem ser, na verdade, as mais tristes por dentro; que inseguranças emocionais podem te levar a vários relacionamentos vazios e suas decepções; e que dentro desses relacionamentos, além de cultivar uma dependência emocional prejudicial, você irá fazer papel de trouxa por alguém que simplesmente não te ama. É também com a simpática Nana, num momento mais adiante do anime, que podemos observar que a carência e a “necessidade” de estar com alguém para poder tampar um vazio no coração, podem te levar a situações sem volta; que até a mais ingênua pessoa pode, dentro dos seus próprios parâmetros, amadurecer; e que se você tem contas pra pagar, então é melhor aceitar qualquer emprego que surge na sua frente.

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Mas voltando ao anime, o que acho tão interessante nele são os detalhes que, talvez poucas pessoas tenham notado, e que pra mim, fazem toda a diferença. Como por exemplo, o fato de os personagens secundários não sumirem completamente da vida das protagonistas (principalmente os crushs). Vez ou outra, eles são lembrados ou dão um sinalzinho de vida como um cartão de casamento – muito fidedígno a vida real, já que infelizmente alguns fantasmas não desaparecem facilmente para nós também, certo ?. Outra sacada muito boa é a normalização de profissões que muitas vezes são vistas como inferiores ou “sem futuro”, tudo bem você começar por baixo como vendedor de algo ou querer seguir carreira na área das artes. É a sua vida e é você quem sabe a melhor maneira de como alcançar o seu objetivo e qual destino pretende trilhar.

Dá pra tirar muita coisa boa de Nana, desde as mudanças de traço para dar um ar mais cômico em certos momentos, até a dinâmica narrativa, que diferencia a perspectiva da história e seu enfoque em cada nana, através das narrações feitas e alternadas por estas, num futuro levemente distante da história contada. Mas ainda que em muito do anime haja exacerbadas e incômodas cenas de fumo – sério, nenhum episódio escapa disso – não há como se manter desinteressado pela história – e olha que eu nem falei sobre as questões mais polemicas como aborto, prostituição, abuso e a dita “família tradicional perfeita”.

Reprodução.

Nana traz muitos assuntos que, mesmo sendo de uma época levemente distante, ainda são bastante relevantes hoje e válidos a se observarem em seus 47 episódios. Mas esse artigo já está ficando muito grande e, apesar de eu ter assunto pra uma parte dois – falem nos comentários se devo fazer uma – acho melhor parar por aqui. É uma pena que tanto o anime quanto o mangá ainda não tenham seus finais fechados. Resta desejar que ao menos essa decepção, assim como a saúde da autora, possam ser remediadas o quanto antes. E que até lá, nós possamos sempre ver essa história como um copo de morangos meio cheio.

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