Análise: Lord of Mysteries: uma história de segredos, poder e sobrevivência

Reprodução.

“O Louco que não pertence a esta era.
O misterioso governante acima da névoa cinzenta.
O Rei do Amarelo e do Preto que rege a boa sorte.”

Essas palavras resumem o espírito de Lord of Mysteries, animação chinesa lançada em 2025 que adapta a popular webnovel de Cuttlefish That Loves Diving. Ambientada em um mundo inspirado na era vitoriana, a história acompanha Klein Moretti, um homem comum que se vê envolvido com sociedades secretas, rituais ocultistas e forças sobrenaturais que operam além da compreensão humana. Sem recorrer a explicações excessivas, a obra constrói seu universo por meio do mistério e da descoberta gradual, convidando o espectador a desvendar seus segredos junto ao protagonista.

História e Análise

Quando o assunto é anime, o senso comum ainda associa o termo quase automaticamente às produções japonesas que moldaram o mercado mundial ao longo de décadas. A animação chinesa, por outro lado, tem crescido de forma mais silenciosa nos últimos anos, ampliando seu alcance pouco a pouco. Títulos como Link Click e Heaven Official’s Blessing ajudaram a pavimentar esse caminho, mas Lord of Mysteries surge com uma proposta própria, mais densa, menos acessível e distante da preocupação em agradar logo nos primeiros episódios.

Nunca fui um consumidor frequente de donghuas. O idioma e certas escolhas de ritmo, diferentes das narrativas japonesas às quais estou mais acostumado, sempre me mantiveram à distância. Ainda assim, a série conseguiu me fisgar rapidamente. Há algo em sua atmosfera, na direção visual e na composição de cada cena que prende o olhar, mesmo quando a história prefere esconder suas intenções.

A trama acompanha Zhou Mingrui, um jovem que vivia na China contemporânea e que renasce no corpo de Klein Moretti após um incidente misterioso. Ele passa a existir em um mundo que remete à Inglaterra vitoriana do século XIX, marcado por máquinas a vapor, navios de guerra e os sinais da crescente industrialização. Essa realidade convive com práticas ocultistas, como adivinhação, maldições, cartas de tarô e o uso de artefatos místicos, criando um contraste constante entre progresso tecnológico e forças sobrenaturais.

B.CMAY PICTURES / Divulgação

Essa combinação já define o tom da história logo de início e deixa clara a identidade da obra. O donghua mistura elementos do horror lovecraftiano com uma estética steampunk bem marcada e um sistema de poderes que foge do comum. Aqui, buscar conhecimento nunca é algo simples ou seguro, já que risco e sanidade caminham juntos o tempo todo. O resultado é uma atmosfera pesada e inquietante, que prefere o mistério e a construção gradual do mundo a explicações rápidas ou conflitos diretos.

Na primeira temporada, a história se concentra principalmente na adaptação de Zhou Mingrui, agora vivendo como Klein, ao novo mundo em que se encontra. Ele mora na cidade de Tingen, no Reino de Loen, ao lado dos irmãos Benson e Melissa. Envolvido em acontecimentos cada vez mais complexos e conspirações perigosas, precisa lidar com ameaças místicas que colocam sua vida em risco, enquanto tenta compreender essa nova realidade e encontrar uma forma de retornar para casa.

O ponto de partida da narrativa é a morte de seus amigos e do próprio Klein original, causada por um caderno misterioso. Esse evento o leva, gradualmente, a se envolver com uma organização religiosa secreta formada por Beyonders. Nesse universo, os Beyonders são humanos que adquirem habilidades sobre-humanas ao consumir poções especiais. Existem 22 Caminhos distintos, organizados em Sequências, sendo a Sequência 9 a mais fraca. Quanto menor o número da Sequência, mais poderosas se tornam as habilidades, chegando a níveis capazes de rivalizar até mesmo com os deuses.

B.CMAY PICTURES / Divulgação

É nesse contexto que a produção se distancia de narrativas tradicionais de ascensão heroica. O foco não está no poder imediato, mas no risco, na descoberta e na sensação constante de que conhecimento demais cobra um preço alto. O sistema de poderes, que à primeira vista parece rígido, revela-se progressivamente mais instável e perigoso, especialmente quando circunstâncias excepcionais desafiam suas próprias regras.

O mistério é o verdadeiro motor da história. A série evita respostas fáceis e constrói sua progressão por meio de símbolos, diálogos contidos e eventos que, em um primeiro momento, podem parecer desconexos. Essa escolha faz com que a experiência do espectador acompanhe a do protagonista: confusa no início, inquietante ao longo do caminho e recompensadora para quem aceita montar o quebra-cabeça com paciência.

Mesmo para quem não teve contato prévio com a obra original, a narrativa se mantém coesa. Apesar de críticas ao ritmo acelerado e à quantidade de informações concentradas nos episódios iniciais, isso não compromete a compreensão. Os acontecimentos seguem uma lógica interna consistente, e o mundo vai se revelando aos poucos, despertando mais curiosidade do que confusão.

Nos primeiros episódios, tudo pode parecer caótico. Com o avanço da trama, porém, as peças começam a se encaixar. Lord of Mysteries recompensa a paciência do espectador e deixa claro que seu mistério não é gratuito. Trata-se de uma narrativa que cresce com o tempo e entende o suspense não como artifício, mas como parte essencial da experiência.

Personagens

Um dos maiores méritos da trama está na forma como seus personagens ganham profundidade, mesmo dentro de uma narrativa densa e cheia de camadas. Klein Moretti é o centro dessa construção. Diferente de muitos protagonistas que já surgem excessivamente poderosos, ele chega a esse novo mundo confuso, inseguro e sem qualquer vantagem evidente. Sua evolução não se resume a ficar mais forte, mas a aprender a observar, medir riscos e tomar decisões difíceis, algo que a série transmite com naturalidade e sem subestimar quem assiste.

B.CMAY PICTURES / Divulgação

Klein se destaca justamente por essa humanidade. Ele hesita, questiona as próprias escolhas e, muitas vezes, precisa improvisar para seguir em frente. Ao longo da temporada, fica claro que seu crescimento vai além do aspecto prático. Há um amadurecimento emocional e psicológico que torna sua trajetória mais crível e interessante do que a de muitos protagonistas do gênero.

Também é positivo o fato de ele não assumir o papel clássico de protagonista overpower. Klein inicia sua jornada como um Beyonder da Sequência 9, seguindo o Caminho do Vidente, um poder mais voltado à percepção, à intuição e à leitura do destino do que ao combate direto. Essa limitação empurra a narrativa para o mistério e a investigação, fazendo com que cada avanço dependa de atenção aos detalhes e de informações obtidas com cautela. Ao mesmo tempo, a história deixa claro que esse ponto de partida carrega um grande potencial, preparando o terreno para uma evolução gradual, em que o conhecimento se torna sua principal arma.

Os personagens secundários também têm peso real e não existem apenas para preencher espaço. Dunn Smith, capitão dos Gaviões da Noite, grupo do qual Klein faz parte, é apresentado como uma figura serena e experiente, mas claramente marcada por perdas e responsabilidades. Mesmo com tempo de tela limitado, ele transmite o desgaste de alguém que convive diariamente com o oculto e com as consequências desse contato.

Azik Eggers surge como um contraponto interessante ao perfil mais analítico de Klein. Sua presença silenciosa e enigmática cria uma sensação constante de proteção e ameaça, como se soubesse mais do que demonstra. Leonard Mitchell, por sua vez, equilibra carisma e mistério, chamando atenção tanto pelo visual quanto pela impressão de conflitos internos ainda não explorados. Seus momentos como Beyonder rendem algumas das cenas visualmente mais marcantes da temporada.

B.CMAY PICTURES / Divulgação

Entre os coadjuvantes, o velho Neil merece um destaque especial. Para mim, ele está entre os grandes acertos da primeira temporada. Sua história resume um dos temas centrais da obra: o preço de se envolver profundamente com o ocultismo. À primeira vista, Neil parece apenas um homem gentil e bem-humorado, mas sua trajetória revela um passado marcado por perdas, arrependimentos e escolhas que cobraram caro. O episódio dedicado a ele está entre os mais impactantes justamente por mostrar, sem qualquer romantização, as consequências desse contato excessivo com forças que fogem ao controle humano.

No conjunto, o donghua entrega um elenco que vai além de arquétipos simples. São personagens moldados pelo que descobrem, pelas decisões que tomam e pelos riscos que aceitam correr. Mais do que figuras em uma fantasia sombria, eles funcionam como partes essenciais de um mundo em que cada escolha tem peso e quase sempre um custo.

Parte Técnica

A animação é, sem dúvida, um dos pontos mais altos da série e, para mim, também um de seus maiores trunfos. Produzida pela B.C May Pictures, responsável por títulos como The King’s Avatar e A Will Eternal, a obra eleva o padrão da animação chinesa e mostra que o donghua já consegue competir em pé de igualdade com grandes produções japonesas em termos de estética e direção visual.

Desde os primeiros episódios, fica evidente o cuidado com cenários, iluminação e atmosfera. O mundo de inspiração vitoriana, com fortes influências steampunk, é retratado com riqueza de detalhes. Ruas, becos, interiores e paisagens sombrias ganham vida por meio de texturas bem trabalhadas e de uma iluminação que reforça constantemente o clima de mistério e tensão. Trata-se de uma construção visual que convida o espectador a se perder naquele universo logo no primeiro contato.

Tecnicamente, a série acerta ao combinar animação 2D tradicional com elementos em 3D de forma equilibrada e fluida. Os movimentos são bem coreografados, e os enquadramentos frequentemente remetem a produções de alto orçamento. Em vários momentos, os ângulos de câmera e as transições lembram escolhas típicas do cinema, criando a sensação de estar diante de algo mais ambicioso do que uma animação televisiva comum.

B.CMAY PICTURES / Divulgação

As sequências sobrenaturais também merecem destaque. Os efeitos visuais ligados aos poderes dos Beyonders evitam exageros e optam por uma abordagem mais contida, o que fortalece a sensação de estranheza e suspense. Pequenos detalhes, como mudanças sutis de expressão, jogos de sombra e elementos discretos em segundo plano, ajudam a transmitir emoções e a carga psicológica das cenas com muito mais eficiência.

No conjunto, o projeto entrega uma animação visualmente marcante e bem pensada, que não existe apenas para impressionar, mas para servir à narrativa. Seus elementos técnicos reforçam a atmosfera, o suspense e o peso do mundo apresentado, consolidando a série como uma prova clara de que o donghua chinês pode oferecer experiências visuais tão impactantes quanto aquelas às quais os fãs de anime já estão acostumados.

Som e Trilha Sonora

O trabalho sonoro complementa muito bem o tom da série. A trilha adiciona peso às cenas mais importantes e reforça a atmosfera geral sem sobrecarregar os visuais ou os diálogos. A música de encerramento, “Dark Dream“, interpretada por Curley Gao, tornou-se facilmente uma das minhas favoritas. A letra e a interpretação vocal são marcantes, e a canção funciona como um fechamento poderoso, elevando o impacto emocional de cada episódio e tornando a experiência ainda mais memorável.

No áudio original em mandarim, as atuações vocais são sólidas e bem alinhadas com o clima sério da narrativa, transmitindo emoção de forma contida e eficaz. Já a dublagem em português da Crunchyroll, produzida pelo estúdio Artworks Digital Studio, com direção de Gustavo Nader e adaptação de Rodrigo Rossi, que também dá voz ao protagonista Klein, faz um bom trabalho ao transportar esse tom para o público brasileiro. No conjunto, som, música e vozes contribuem de forma consistente para a imersão, reforçando a sensação de estar diante de um mundo perigoso, silencioso e repleto de segredos.

Considerações Finais

Entrei em Lord of Mysteries movido mais pela curiosidade do que por grandes expectativas. O que encontrei foi uma obra que vai muito além de uma simples adaptação ou de uma produção apenas competente. A série deixa claro o nível de maturidade que a animação chinesa vem alcançando, tanto em ambição narrativa quanto em cuidado técnico.

Com uma história guiada pelo mistério, personagens bem construídos, um sistema de poder intrigante e uma apresentação audiovisual de alto nível, em uma experiência que pede atenção e recompensa quem se dispõe a acompanhar tudo com calma. Não é uma obra feita para consumo rápido, mas para quem gosta de mergulhar em mundos complexos e cheios de camadas.

Ao final da temporada, fica a sensação de ter acompanhado algo especial. Para mim, Lord of Mysteries não é apenas um bom donghua, mas uma obra-prima da animação chinesa, capaz de competir em pé de igualdade com grandes produções do mercado global. É o tipo de série que muda expectativas e reforça que vale a pena olhar além do óbvio.

Nota: 10/10

Lord of Mysteries está disponível na Crunchyroll com dublagem, áudio original e legendas em português.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não remete necessariamente a posição do ANMTV*