Kemono Jihen: O inicio de um sonho / Deu tudo errado

Por Williams Gomes em

Shueisha / Ajia-do Animation Works / Divulgação

Para quem passou o dia todo se preocupando em pagar as contas do fim do mês e permanecer vivo durante um desgoverno, poder relaxar no final do dia assistindo alguma coisa que te tire da realidade por alguns minutos é uma dádiva. E se a opção for um anime que envolva magia, figuras folclóricas e mistérios mesclados a um contexto atual com muitas batalhas, é melhor ainda.

Pena que a opção disponível para essa missão é a produção do estúdio Ajia-do Animation Works, intitulada Kemono Jihen (怪物 事 変 ou “Monster Incidents”). E como diria o garoto do barril: “Teria sido melhor ir ver o filme do Pelé”. O porquê?. Siga a leitura para descobrir.

A obra de Shõ Aimoto, possuí em seus 12 episódios, uma premissa até que bem interessante: um menino hibrido (metade humano e metade demônio) que é abandonado pelos pais, mas que logo junta-se a uma equipe de investigação com outros tipos de híbridos que trabalham para uma espécie de polícia que visa manter em segredo dos humanos a sua existência.

A princípio, a obra que ao contar a história de seu protagonista, começa abrindo uma leve expectativa de ascensão, logo trata de frustrar o público em seu primeiro episódio ao nos entregar de fato, um personagem principal tão apático e sem nenhuma personalidade (ainda que essa razão seja explicada no anime). A ideia de contrastar a insensibilidade do protagonista Kabane com todo a sorte de sentimentos que ele possa querer descobrir e encontrar em outras personagens, não poderia ter sido mais mal trabalhada no anime. Isso porque qualquer personagem secundário que apareça, consegue obter mais destaque para si e o seu próprio arco, do que o personagem principal da produção.

Shueisha / Divulgação

E por falar em personagens, assistir Kemono Jihen foi como acompanhar um especial de vários animes com uma roupagem de Jujutsu Kaisen, de tantos personagens clichês presentes. Desde o chefe misterioso, mas legal com um quê de Kakashi Sensei (Naruto), passando pelo garoto afeminado chorão com o irmão malvado (Shun e Ikki – Cavaleiros do Zodíaco) até a velha enfermeira baixinha (Recovery girl – My Hero Academia) e o garoto estourado, mas que tem bom coração (Kuwabara – YuYu Hakusho).

No geral, Kemono Jihen demora para estabelecer conexão entre o espectador e seus personagens, fazendo com que o anime comece a florescer somente da metade pra frente (coincidentemente ou não) ao pausar o arco de kabane e trabalhar o desenvolvimento de seus companheiros de equipe em seus arcos individuais. Mas apesar de todas as questões levantadas, vale mencionar, que o a obra de Shõ Aimoto possuí suas perolas escondidas.

A mudança de traço, geralmente usada para dar ênfases em algumas mais tensas ou agressivas, são muito bem aplicadas na produção, fazendo inclusive, o público esperar por algo mais sangrento e gore no momento seguinte. Outra quebra, mas desta vez muito positiva, é o formato dos episódios aonde, até a primeira metade do anime vemos histórias de começo, meio e fim em cada episódio (fillers), mas que após a segunda metade observamos os ganchos narrativos para continuar assistindo ao episódio seguinte.

Shueisha / Ajia-do Animation Works / Divulgação

Por fim, podemos dizer que Kemono Jihen está longe entrar para o hall dos animes queridinhos de temática sobrenatural feito Demon Slayer e o já mencionado Jujutso Kaisen. Mas dentre tantas produções de 2021, a obra administrada pela Funimation também está um pouco distante de ser considerado o pior de todas as produções.

Sendo muito otimista, é muito possível que, se seguir a progressão de sua segunda metade de episódios, o anime numa segunda temporada consiga subir em sua qualidade narrativa – mesmo tendo um protagonista tão morto como esse – e consiga refinar não só o contraste cômico entre a insensibilidade e os dilemas sentimentais, como também a construção de seus personagens.

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