Especial: Rita Lee e o rock’n’roll feminino nos animes

No início da última segunda-feira (8), o Brasil perdeu o que seria – e na verdade sempre vai ser – uma de suas mais reluzentes estrelas do Rock, a lendária Rita Lee. Dentre as mulheres brasileiras, uma pioneira no gênero musical agressivo à ganhar notoriedade no país e, com muita justiça, reconhecida por todos até hoje como a rainha do Rock brasileiro – embora, na verdade, Rita sempre tenha preferido o termo “padroeira da liberdade”.

Som Livre / Divulgação.

Apesar do profundo baque que muitos brasileiros possam ter sentido ao receberem a notícia da passagem da Ovelha Negra do Rock, esse mesmo acontecimento, como em muitos outros casos, foi capaz de despertar pensamentos e comportamentos que ou nunca passaram por nossas cabeças ou que, outrora, estavam adormecidos e agora resolveram despertar. Algumas pessoas resolveram ler os livros de Rita, outras já preferiram escutar sua discografia inteira. Este que vos escreve, no entanto, acabou pensando: Quantos animes de rock com protagonistas femininas existem por aí? Onde eles estão? Por quê eu nunca ouvi falar deles?

A verdade é que, apesar de presente, a proposta de animes com foco em bandas de rock não é tão difundida se comparada com as já batidas ideias de heróis musculosos e suas lutinhas com super poderes, haréns e personagens reencarnando em forma de chinelo ou seja lá qual for o objeto ou ser vivo. E encontrar essa mesma proposta tendo como protagonismo a narrativa de uma personagem feminina é ainda mais escassa, tendo em vista que, assim como boa parte do mundo, o Japão – maior produtor de animes do mundo – segue sendo regido por uma visão corporativa e social majoritariamente patriarcal, aonde poucas obras de relevância e com protagonismo feminino – bem como suas autoras – chegam ao sucesso.

Relegando o mercado a umas poucas produções que, apesar de boas, terminam por ser um sucesso apenas em suas minúsculas bolhas de público, seja porque teve um homem encabeçando sua criação ou por ter uma mulher que conseguiu ser um ponto fora da curva. Ainda assim, vale a pena conhecer algumas dessas estrelas do Rock e quem sabe trazer novas tendências temáticas e o um novo repertório ao público Otaku.

Bubblegum Crisis (1987)

No anime de ação e ficção científica produzido pelo extinto estúdio Artmic, com direção de Katsuhito Akiyama e roteiro de Toshimichi Suzuki, somos levados diretamente para uma Tóquio futurística. A cidade está sob a ameaça constante de uma série de criaturas chamadas “Boomers”, utilizados originalmente em indústrias de construção, mas que agora foram modificados e estendidos para serem usados em tarefas públicas. Quando esses Boomers começam a se rebelar contra seus mestres humanos, um grupo de quatro mulheres chamado Knight Sabers, equipado com armaduras de combate e habilidades especiais, se unem para lutar contra as ameaças biomecânicas e proteger a cidade. Mas além de todos os conflitos explosivos envolvendo os Boomers, podemos acompanhar histórias como a da personagem Priss, vocalista de uma banda de Glam Rock, uma sonoridade muito forte na época da produção do anime e que acaba sendo muito presente na trilha sonora da produção.

Artmic / Divulgação

Bubblegum Crisis ainda conta com o design de personagens feito por Kenichi Sonoda e a música foi composta por Kouhei Tanaka. A série foi um sucesso na época e gerou várias adaptações spin-off. Atualmente, Bubblegum Crisis encontra-se oficialmente indisponível no Brasil.

FLCL (2000)

Já em FLCL (Fooly Cooly) temos um anime de comédia, ação e ficção científica que conta a história de Naota Nandaba, um jovem de 12 anos que vive em uma cidade suburbana chamada Mabase. Mas sua vida pacata é interrompida quando uma misteriosa garota chamada Haruko Haruhara surge em sua vida, dirigindo uma Vespa (moto), atacando-o com uma guitarra e revelando uma série de eventos surreais e caóticos. Haruko, que não demora muito para cativar nossa atenção com sua personalidade avassaladora, se autodenomina uma extraterrestre e que está em busca de uma entidade chamada “Pirata do Espaço”, a qual acredita que Naota esteja ligado a ela. A partir daí, a vida de Naota vira de cabeça para baixo, com o surgimento de robôs gigantes, brigas intensas e uma série de confusões.

Gainax/ Production I.G / Divulgação

Ao longo dos episódios roteirizados por Yoji Enokido, o anime do Estúdio Gainax, Production IG e Starchild Records explora temas como amadurecimento, sexualidade, juventude e o caos que muitas vezes acompanha a adolescência.

Haruko e Naota, junto com seus amigos Mamimi, Ninamori e o irmão mais velho de Mamimi, Tasuku, embarcam em uma jornada cheia de aventuras extravagantes e questionamentos pessoais. A obra, que inclusive possui duas sequências, é conhecida por sua narrativa não linear, estilo visual distintivo e uso criativo de metáforas e simbolismo. O anime conquistou uma base de fãs dedicada e influenciou uma geração de criadores devido à sua abordagem única e emocionalmente carregada. No Brasil, o anime encontra-se disponível na plataforma HBO Max, enquanto seu derivado (FLCL – Alternative) pode ser visto na Crunchyroll.

Nana (2006)

A série de anime baseada no mangá homônimo, criado por Ai Yazawa, fala de duas garotas com o mesmo nome (Nana) que decidem se mudar para a mesma cidade, no mesmo dia, pegando o mesmo trem e no mesmo horário. Após se conhecerem na viagem, separam-se, e como uma brincadeira do destino, se reencontram dias depois tentando alugar o mesmo apartamento.

Segura de si e dona de um estilo punk invejável, Nana Osaki é a vocalista da banda de rock Black Stones e a que decide buscar na cidade grande o sucesso através da sua música. Diferentemente dela, Nana Komatsu, a típica – E extremamente frágil – garota do interior, é a jovem romântica que sonha em viver para sempre com o homem dos seus sonhos, ter uma linda família e que, por conta disso, resolve mudar-se para Tóquio a fim de morar junto com o namorado. As duas se tornam colegas de apartamento, e a partir daí, vemos como os planos de ambas se desenvolvem na reluzente cidade japonesa.

Madhouse / Divulgação

Através de suas protagonistas, sobretudo Nana Osaka, somos constantemente confrontados com temas como amizade, amor, música e os desafios da vida adulta. Sem mencionar sua incrível trilha sonora composta pelas músicas da Black Stones e sua nêmesis Trapnest.

O anime, que atualmente encontra-se em um longo hiato, foi produzido pelo estúdio Madhouse, dirigido por Morio Asaka e, apesar de ainda não possuir – tanto nos animes quanto nos mangás – um ponto final em sua história, já é visto por muitos consumidores destas mídia como um clássico. No Brasil, Nana encontra-se indisponível, uma vez que está sob a posse do serviço de streaming HIDIVE e este não opera mais no país.

K-On! (2009)

K-On! é um anime que conta a história de quatro amigas do ensino médio que decidem criar uma banda de música para participar do festival cultural de sua escola. Yui, a protagonista, é uma jovem alegre e desastrada que acaba se juntando às três garotas para formar a banda. Junto com suas colegas de banda, Mio, Ritsu e Tsumugi, elas embarcam em uma jornada emocionante para descobrir sua paixão pela música e tentar tornar sua banda um sucesso.

O anime é preenchido com cenas divertidas e cheias de ação, de ensaios musicais e apresentações energéticas. À medida que as garotas se aproximam e se desenvolvem juntas, elas experimentam as alegrias e desafios que vêm com a amizade e a busca de um sonho compartilhado.

Bushiroad / Kyoto Animation / Divulgação

O anime foi produzido em 2009 pelo estúdio Kyoto Animation, baseado no mangá de mesmo nome de Kakifly. A obra foi um grande sucesso, ganhando uma base de fãs leais e críticas positivas por sua combinação de humor, drama e música. Além disso, K-On! Também gerou um forte interesse em instrumentos musicais, resultando em um aumento nas vendas de guitarras e baixos em todo o Japão. A série teve duas temporadas e um filme, que foram lançados entre 2009 e 2011.

K-On! É considerado um anime clássico e é amado por muitos fãs de anime em todo o mundo. Atualmente o anime encontra-se oficialmente indisponível no Brasil.

BanG Dream! (2017)

Na produção derivada do mangá e jogo de mesmo nome, somos apresentados a jovem Kasumi Toyama, que desde muito nova sempre buscou pelo som mágico do “Star Beat”, uma melodia que certo dia ouviu fascinada sob as estrelas. Já no ensino médio, ela encontra uma guitarra em forma de estrela em uma loja de penhores abandonada e se sente tomada por uma empolgação nunca antes experimentada.

Unindo-se a quatro garotas, ela parte em uma jornada em busca de um lugar brilhante e especial. Com BanG Dream! exploramos temas como amizade, paixão, perseverança e autodescoberta, enquanto suas personagens enfrentam obstáculos pessoais e buscam realizar seus sonhos musicais.

Xebec / Issen / Divulgação

A obra foi desenvolvida pela empresa Bushiroad e os estúdios Xebec e Issen, com direção de Atsushi Ootsuki e Masuki Ochiai, e roteiro de Yasuhiro Nakanishi. Até o momento, foram produzidas três temporadas do anime Bang Dream!, cada uma com 13 episódios. Além disso, também foram feitos dois filmes de animação baseados na série.

O primeiro filme, intitulado “BanG Dream! FILM LIVE”, foi lançado em setembro de 2019 no Japão. O segundo filme, intitulado “BanG Dream! FILM LIVE 2nd Stage”, foi lançado em agosto de 2021. Há também um jogo para celular com o nome de “BanG Dream! Girls Band Party!”, que é considerado um spin-off da série de anime.

Atualmente, apenas uma parte muito ínfima do conteúdo de Bang Dream! pode ser assistida de forma oficial no Brasil e legendada, através da plataforma de streaming Crunchyroll.

Bocchi The Rock! (2022)

O anime baseado na obra da mangaká Aki Hamaji, conta a história da extremamente introvertida Bocchi, que na sua tentativa de lidar com suas inseguranças e introversão começa a estudar guitarra com o intuito de se apresentar e possivelmente ser uma estrela super famosa. Porém, quanto mais a garota deseja, mais os seus medos a travam e a impedem, fazendo com que, curiosamente, Bocchi cruze com pessoas que podem ajudá-la à alcançar seus objetivos.

A obra nos mostra por meio de Bocchi, que alguns obstáculos do dia a dia outrora insignificantes pra alguns, são extremamente altos para outros. Mas que no final de tudo, a confiança em si, na suas escolhas, e um pouquinho de trabalho em equipe, são as únicas coisas que nos tiram da nossa própria prisão mental.

Cloverworks / Divulgação

O anime, que está em sua primeira temporada, está disponível com legendas na plataforma de streaming Crunchyroll e inclusive concorre em várias categorias na edição 2023 do Anime Awards Brasil.

Com tudo o que foi apresentado até aqui, é indubitável que o rock foi e segue sendo uma influência que permeia os mais diversos campos artísticos e mentes criativas como a de Rita Lee. Ela que, junto de muitas outras, abriu caminho para que uma série de mulheres entrassem, entrem e permaneçam entrando no meio musical ou artístico que lhes interessa, seja pra fazer rock, funk, cinema, ilustrações, design, etc.

Da mesma forma que os títulos mencionados acima, tentam ainda hoje, desbravar os oceanos comerciais repletos de obras semelhantes entre si e com gêneros desgastados, na esperança de encontrar — seja dentro ou fora das regras de distribuição — garotas e garotos revolucionários capazes de quebrar o ciclo normativo imposto por uma sociedade, para enfim trazerem juntos, essa temática e esse protagonismo sob os holofotes da fama.