Animes e uma nova visão de pai

Por Williams Gomes em

Liden Films / Divulgação

Sabe aquele filme que você assiste e tem noção que determinado personagem está lá, mas que na verdade você nem liga? Ou que se for em uma obra de terror, você espera que morra logo? Pois é, pra mim esse personagem seria o pai. Isso porque se tem uma coisa que sempre detestei, e isso vale tanto pro universo dos animes quanto pra vida real, é essa constante ideia de que você precisa associar a figura paterna com o estereótipo de alguém extremamente sério e que a todo custo precisa sempre demonstrar uma imagem de força, que beira a insensibilidade, tanto para com os filhos quanto para a sua própria companheira. Isso, ao longo dos anos acabou me fazendo criar uma certa antipatia por esse tipo de figura em geral (salvo algumas exceções).

No entanto, é sempre muito feliz quando esses perfis são deixados de lado em algumas obras. E mais ainda, quando visões cristalizadas da figura paterna – como a minha – podem ser desconstruídas mesmo depois de muito tempo e sendo retornadas a um lugar saudável na memória, que no meu caso, eu até sabia que existia, mas que em algum momento da vida, acabei esquecendo o caminho de volta para poder reencontra-la.

Sweetness and Lightning

TMS/3xCube / Divulgação

Um bom exemplo desse tipo de abordagem mais humana está presente em Sweetness and lightning (Amaama to Inazuma) aonde um pai, o professor Kōhei Inuzuka precisa exercitar toda sua habilidade paterna em criar a própria filha pequena, a adorável Tsumugi, depois de ambos perderem a matriarca da família. Aqui observamos o quão necessário é, não só para um pai em si, mas para um homem em geral, estar em contato com sua sensibilidade para tentar compreender o que se passa na cabecinha de uma menininha que está sob os seus cuidados e quão crucial podem ser as suas atitudes durante a criação daquela criança.

O interessante em Sweetness está precisamente no fato de apresentar essa figura do pai mais sentimental e amoroso sem que haja qualquer constrangimento (e nem de haver) de que este, em alguns momentos, possa ser mais vulnerável e tentar, por exemplo, se dispor a manter uma “conversa de menina” com a filha para tentar driblar a falta da mãe em determinado momento da narrativa. Aqui vemos que um pai pode tanto ser aquele que se ajoelha até a sua altura para dialogar sobre um comportamento inadequado, quanto aquele que precisa ser mais enérgico e dar uma severa bronca após preocupar-se com o desaparecimento de um filho seu.

Poco’s Udon World

Liden Films / Divulgação

Já em Poco’s Udon World (Udon no Kuni no Kin’iro Kemari) encontramos esse mesmo caminho a ser traçado pelo pai, mas agora com uma nova configuração. Nesta história, aonde o jovem designe gráfico, Souta Tawara,  acaba que “por acaso” se tornando pai após encontrar um tanuki que se transforma em criança dormindo na sua antiga casa, vemos a quão significativa pode ser a figura de um pai na criação de um filho através da perspectiva do próprio filho, e o quanto o tradicional comportamento distante e sério dessa figura paterna, pode ser capaz de criar um abismo entre ele a aquela criança que o admirou na infância.

É ainda na história do simpático tanuki Poco e seu pai, aonde podemos observar outros assuntos que permeiam todo esse universo paternal e que, por muitas vezes, refletem nas próprias escolhas dos filhos. Um exemplo disso é a relação existente entre, Nakajima, um dos personagens secundários, amigo dos protagonistas, e seu pai. Nakajima tem basicamente a mesma jornada inicial de Souta, mas diferentemente do designer gráfico que rompe alguns laços familiares (e depois precisa lutar com seus arrependimentos do passado), o amigo opta (consciente ou inconscientemente) por permanecer na cidade natal e termina por seguir os mesmos passos do pai, mesmo havendo alguns atritos entre ambos.

Um outro ponto a ser mencionado, e que possa ter passado despercebido por alguns, pode ser a mensagem que o anime trás sobre a aceitação e o respeito dos pais (e aqui me refiro a pai e mãe) pelos filhos e suas escolhas profissionais respectivamente, independentemente de eles serem cozinheiros, designers, gays, héteros, ou uma criança tanuki.

Como disse no início do texto, sempre vi a figura paterna como algo muito subestimável e mesmo agora, muitas outras pessoas devem possuir essa visão em mente. Mas em Poco’s Udon World a forma como vemos o filho lentamente se colocar nos sapatos do pai, tendo de criar uma criança que sequer é sua, talvez nos faça a reconsiderar esse pensamento e aproveitar o tempo que nos resta com nossas famílias da melhor maneira possível, além de entender que eles, apesar de mais velhos, podem ser tão sucessivos de falhas quanto nós.

É obvio que nem todos os pais tem o mesmo nível de instrução, que em muitas vezes irão falhar em nos dar uma educação considerada adequada e que poucos serão aqueles que irão querer evoluir com o tempo. Mas se por alguma razão eles não tiverem mais chances de mudanças, por que não nós mesmos não amadurecermos plenamente, pra não ser apenas mais um fruto que não caiu longe da árvore? não porque tenhamos de ser ótimos pais algum dia – eu pelo menos não penso sequer em ser um– mas talvez pelo fato de que, como se costuma dizer por aí, “para ser um bom pai, você precisa ser primeiro um bom homem”.

Poco’s Udon World e Sweetness and Lightning encontram-se disponíveis no catálogo da Crunchyroll.

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