Análise: High Guardian Spice – Vale a pena assistir?

Por Williams Gomes em

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Recém chegada ao catálogo da Crunchyroll, a animação High Guardian Spice tem amargado em sua semana de estreia uma pontuação que, até o final desta edição, mal consegue chegar a duas estrelas dentro da plataforma. Algo preocupante, tendo em vista que o título é uma produção original do serviço de streaming de animes. Mas será que a animação merece mesmo todo esse negativismo recebido?

Para quem ainda não ouviu falar da animação, a sinopse de High Guardian é basicamente a seguinte: A vida de quatro corajosas garotas converge na Academia High Guardian, o lugar onde elas poderão trilhar o pedregoso caminho da vida adulta enquanto se tornam parte das heroínas que tanto admiram. Dominando as artes da guerra e da feitiçaria, o quarteto firma alianças, desvenda legados, encara traições e descobre suas próprias identidades, enquanto se preparam para proteger o mundo de uma sombria ameaça.

É bem verdade que alguns pontos técnicos podem dar aos usuários mais ferrenhos da Crunchyroll motivos para adquirir uma certa da birra de High Guardian Spice. No entanto, muito se engana quem pensa que o desenho animado não tem nada a entregar. Na verdade, a obra de Raye Rodriguez, por mais que beba de várias animações bastante conhecidas e apresente traços em cartoon que lembrem bastante uma ou outra produção anterior, ainda assim consegue elevar o nível do jogo se comparada com suas concorrentes, ao acrescentar em sua composição, por exemplo, um tom ligeiramente mais violento em suas cenas de combate. Apresentando excelentes cenas de batalhas regradas a cortes explícitos, flechadas na cabeça, facadas e diálogos que não temem em apresentar pedidos de morte, a animação – dentro de seus parâmetros –  faz jus ao aviso presente no início de seus episódios – ainda que tais advertências não apareçam em quase todos os animes tão ou mais violentos da plataforma e soem, num contexto macro, um tanto quanto contraditórias.

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Mas esta abordagem mais violenta, de fato é um verdadeiro trunfo nas mãos de sua equipe produção, pois com isso, High Guardian aparenta não fazer caso ao ser comparada com outras produções como She-Ra e as Princesas do Poder, Steven Universo e Litte Witch Academia. Na verdade, é como se a obra tivesse feito questão de levar a sério o “Spice” de seu título e construído em um grande caldeirão, a sua identidade com pequenas pitadas de outras produções contemporâneas. Um reflexo disso pode ser visto logo em sua abertura, a trilha, na voz Windy Wagner, possui um estilo sonoro que facilmente poderia ser visto em produções mais antigas como “Cavalo de Fogo”.

E por falar em sonoridade, no que diz respeito a composição técnica do título original da Crunchyroll, sua trilha sonora cumpre bem o papel de imergir o espectador nas aventuras de suas personagens. Ainda que a dublagem da animação possa soar extremamente caricata nos minutos iniciais de seu episódio de estreia, não demora muito para a mesma se estabilizar, principalmente em seus momentos de comédia, e a sensação de incomodo logo desaparecer quando outros pontos como a ambientação de várias locações passageiras, e fundos bem desenhados surgem ao longo da saga das personagens principais – que por sinal, possuem nomes bem incomuns de se acostumar rapidamente.

Outro aspecto positivo de High Guardian Spice – e nesse caso, essencial -, é que suas personagens principais são uma delícia de se acompanhar, visto que suas construções são muito bem trabalhadas. Logo de cara já somos introduzidos a uma protagonista que possui questões pessoais a serem tratadas, tal qual suas companheiras que, em seus respectivos núcleos, precisam lidar com problemas como relacionamento parental, descobertas sobre si mesmas, questionamentos a respeito de educação familiar e entre outros temas interessantes. Os coadjuvantes da animação também possuem um certo destaque, isso porque tamanha é a personalidade destes, que mesmo em poucos minutos de tela, é possível se deixar levar pelo carisma de cada um e querer ver mais deles durante os episódios seguintes. Até os figurantes, que sequer possuem falas, são usados com um cuidado milimetricamente pensado e divertido. Desde a abertura até quando estamos inseridos no ambiente escolar da obra, quem é expulso da escola realmente não é mais visto e ao olhar pros corredores em alguma cena no ambiente escolar, vez ou outra o espectador encontra um rosto familiar.  Já os momentos de comédia, no geral, funcionam muito bem, assim como os instantes de batalhas que entregam uma animação razoavelmente fluida e com direito a alguns momentos bastante agoniantes.

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De um modo geral, High Guardian Spice está longe de ser uma revolução no mundo das animações, mas não deixa ser uma boa aposta feita pela empresa laranjinha. Na verdade, sua presença dentro do contexto da plataforma Crunchyroll só evidencia mais os novos rumos que o serviço tem optado por seguir. Não apenas por sua preocupação em incluir outros grupos como a comunidade LGBTQIAP+ e suas pautas sociais, como também por apostar em novos estilos de animação afim de expandir sua influência no mercado de streams, tal como outras plataformas como Netflix e Amazon prime, que também possuem, em seus respectivos catálogos, animações originais das mais diversas naturezas contrastando entre si e as series live-action. Um caminho, que para quem está inteirado sobre mundo das grandes empresas do entretenimento, aonde o lucro é o que importa, já era algo que poderia ser esperado mais cedo ou mais tarde, mas que para o consumidor mais ingênuo e limitado, seria um absurdo perante sua “proposta original” de apenas disponibilizar animes.

Resta torcer para que a plataforma não dê pra trás em sua ousadia e desenvolva mais High Guardian Spice em novas temporadas ou, pelo menos, feche os finais abertos em uma segunda e última parte.

High Guadian Spice possui uma temporada de 12 episódios e está disponível no Brasil pela Crunchyroll, com legendas em português.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não remete necessariamente a posição do ANMTV*
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