Análise: Crisol: Theater of Idols – Fé, Sangue e Sobrevivência

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Crisol: Theater of Idols surge como uma proposta ousada dentro dos atuais jogos de terror, e apesar da forte concorrência no mês de fevereiro contra Nioh 3 e Resident Evil Requeim, busca ser uma opção a mais, com retorno em suma positivo para os que lhe derem uma chance – e de verdade, não é difícil. Apostando em uma identidade que mistura drama, survival horror e simbolismo, Theater of Idols deve suprir o vazio quando os principais jogos vierem a ser concluídos. Se você optar assim.

Blumhouse Games / Vermila Studios / Divulgação

Desde os primeiros momentos, o jogo deixa claro que não pretende ser só uma experiência assustadora, mas sim que nos deixará com desconforto constante, tanto narrativo quanto mecânico. Aqui controlamos Gabriel (Gab!), um soldado enviado à ilha de Tormentosa, um lugar dominado por fanatismo religioso, ídolos grotescos e uma sensação de abandono e decadência. E sobre isso, devemos destacar sua ambientação, aos mínimos detalhes, onde cada cena traz um significado. Cada vislumbre pela janela, cada travessia – dos pedaços de carne estirados ao chão ou pendurados -, lamparinas e edifícios. Fica claro que se existia muito mais que um “culto” por ali. As histórias que encontramos no caminho reforçam isso, e a imersão através dos detalhes torna a experiência completa.

Não é difícil perceber influências de jogos como Resident Evil, especialmente na forma como os ambientes são explorados com cautela, e até de The Evil Within, muito pelas questões psicológicas que envolvem o entorno do personagem – e isso pode ser algo muito positivo para cravar seu espaço, já que por associação a estes, o torna mais convidativo se ainda houver alguma duvida. Apesar disso, o jogo consegue manter personalidade própria, evitando a sensação de ser apenas uma cópia.

Blumhouse Games / Vermila Studios / Divulgação

Embora discreta, a trilha sonora se mostra bastante eficaz, de sútil a escalada de tensão no tempo certo. Entre ambientes, sussurros, passos e ruídos metálicos, causando desconforto imediato por não sabermos o que nos espera. E, embora esteja longe de ser um jogo que proporcione sustos, a equipe conseguiu dosar muito bem estes pontos.

A narrativa se desenvolve de forma fragmentada, por meio de memórias, visões e elementos, incentivando o jogador a interpretar os acontecimentos e montar o quebra-cabeça por conta própria – e até mesmo sendo responsável por decifrar puzzles. A história não te entrega tudo de cara, e a dúvida se “Estou fazendo o que é certo?” de imediato começará a surgir.

Agora quanto a jogabilidade, o que de cara me impressionou foi o sistema de combate e recursos – através do sangue do personagem. Sim. Com ele, você pode recarregar suas armas ao mesmo tempo que aprimora sua cura. A cada disparo, você precisa se atentar a quantidade de sangue, não chega a morrer se esgotar, mas poderá lhe custar a vida diante de algum obstáculo. Pra mim, isso tornou Crisol muito especial, pois casa exatamente com a sua proposta de fé e sacrifício, seja pelo Sol ou El Mar.

Blumhouse Games / Vermila Studios / Divulgação

Ao longo do jogo, é possível aprimorar as armas e habilidades especiais do protagonista, como redução de dano e velocidade de disparo, embora, pra mim, estejam longe de realmente fazerem a diferença. Você acaba aperfeiçoando por acúmulo de itens e falta de opções, mas se não o fizesse não daria tanta diferença assim.

De modo geral, apesar de todas as qualidades estéticas e um cuidado genuíno, Crisol não está livre de alguns problemas pontuais. Durante o jogo, é possível encontrar travamentos involuntários e pequenas quedas de desempenho, seja durante os disparos (o que pode ser motivo para que lhe seja desferido um golpe), ou entra e saída de cenários. A IA falha enquanto você é perseguido pela “Dolores” tornam a experiência menos envolvente do que deveria. Basta se esconder no primeiro buraco que ver pela frente, aguardar 3 segundos e pronto, está salvo. Cenários que as vezes podem soar repetitivos também são uma realidade. Poderia ser mais desafiador. Situações essas que não comprometem a experiência, mas que nos deixam a sensação de que poderia ter sido muito melhor. A situação clamava por isso.

Uma experiência intensa, criativa e corajosa, principalmente pela maneira como você precisa administrar os recursos. Apesar de alguns breves problemas, eles não se sobressaem diante do resultado final. Ao fim do dia, Crisol se mostrará como sendo bem agradável, mas com aquele sentimento de que “poderia ter feito mais, sido mais”.

Crisol: Theater of Idols está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC (via Steam).

Nota: 8/10

Agradecimentos a Blumhouse Games pelo envio antecipado do material. Análise feita em versão para PlayStation 5.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não remete necessariamente a posição do ANMTV*