
Se você não teve a oportunidade de conhecer o universo do primeiro Code Vein, pois Code Vein II não funciona como uma continuação direta. Apesar de preservar alguns elementos narrativos e mecânicos do original, o jogo apresenta um narrativa própria, situada em uma realidade paralela onde a sociedade humana entrou em colapso após um evento chamado Ressurgência, uma liberação anormal de energia que transformou seres vivos e objetos em criaturas conhecidas como Horrors (lembrou um certo anime). No último surto desse fenômeno, quatro Revenants se sacrificaram ao se enclausurar em casulos, usando sua própria força vital para conter a ameaça e evitar a destruição do que restou do mundo.
A história se desenrola a partir de uma narrativa repleta de viagens no tempo, nas quais o jogador precisa localizar “chaves” capazes de libertar esses heróis de seus casulos e eliminá-los antes que provoquem uma catástrofe global. Há ainda a possibilidade de revisitar o passado e alterar as tragédias pessoais que os levaram ao sacrifício. O objetivo não é impedir suas decisões, mas permitir que encontrem paz ao aceitá-las.

Essas escolhas influenciam diretamente o desfecho da trama e levantam questionamentos morais. Embora salvar o mundo seja a missão principal, conhecer melhor os Revenants ao longo das diferentes linhas temporais provoca dúvidas sobre o papel deles nesse cenário pós-apocalíptico. Em Code Vein II, essas figuras funcionam essencialmente como vampiros. Com o colapso da civilização humana, saíram das sombras e se tornaram a espécie dominante. Em teoria, protegem o que restou da humanidade enquanto tentam evitar o fim do mundo; por outro lado, há momentos em que tratam uma criança humana como uma “bolsa de sangue”, sugerindo que os humanos sobrevivem também como fonte de alimento. Diante disso, causa estranhamento o fato de o protagonista, um humano ressuscitado com metade do coração de um Revenant, não reagir a esse contexto de forma mais incisiva. É um elemento que parece deslocado dentro da narrativa.
No campo da jogabilidade, o título surpreende pelo equilíbrio entre sistemas e possibilidades de construção de personagem. Interagir com outros Revenants permite adquirir seus Blood Codes, que funcionam como classes com pontos fortes e fracos. Ainda assim, não há restrições extremas: é possível, por exemplo, usar um código focado em destreza e magia enquanto empunha uma espada gigante de duas mãos. O sistema de “peso” do jogo se adapta a essas escolhas. Mesmo sem atender aos requisitos de força de determinada arma, o jogador pode utilizá-la, mas recebe efeitos positivos e negativos. Nesse caso, ataques corpo a corpo ficam mais poderosos, porém consomem mais resistência quando erram o alvo.

Outro elemento importante é a presença constante de um parceiro Revenant. Em momentos específicos da história, a escolha é definida pelo roteiro, mas fora disso o jogador decide como quer que o aliado influencie a partida. Também é possível assimilá-lo e receber bônus conforme o nível do Blood Code. A opção padrão, porém, é mantê-lo ativo no combate, lutando ao lado do protagonista e servindo como distração útil, especialmente em batalhas contra chefes, quando há necessidade de se curar. O sistema se mostra eficiente, principalmente porque os ataques de drenagem do parceiro ajudam a gerar energia para habilidades especiais.
Com o avanço da campanha, no entanto, o nível de desafio diminui de forma perceptível. Ao tentar libertar o terceiro herói, grande parte dos inimigos já era derrotada com facilidade, e até chefes que antes exigiam várias tentativas passaram a cair sem muita resistência. A impressão inicial foi de que a ordem das missões poderia ter sido escolhida de maneira equivocada, mas a sensação permaneceu até a área final. Não fica claro se isso ocorre pelo acúmulo de missões secundárias, que fortalecem o personagem, ou por falhas no escalonamento de dificuldade. Ainda assim, a sensação de poder acaba sendo um ponto positivo para alguns jogadores.

Além disso, certas decisões de design geram frustração. A ausência de um mapa interno nas áreas centrais obriga o jogador a circular sem direção clara ao procurar NPCs, algo que contrasta com a organização das dungeons. Também causa estranhamento derrotar versões corrompidas dos heróis Revenants, absorver seus corações em cenas marcantes e, depois, precisar comprar suas armas em uma loja. Sem indicação clara dessa possibilidade, é fácil passar boa parte da campanha usando apenas os equipamentos básicos.
O ponto mais incômodo, porém, é a ausência de pausa em uma experiência totalmente single-player. Em jogos multiplayer isso é compreensível, mas em uma aventura solo a impossibilidade de interromper a ação para resolver questões do cotidiano, como atender uma criança ou cuidar de um animal, se torna um obstáculo real. Pode não incomodar todos os jogadores, mas é uma escolha difícil de justificar.
Mesmo com uma história por vezes confusa, sistemas numerosos e a falta da função de pausa, Code Vein II se firma como uma entrada sólida no gênero Soulslike. O combate é exigente, mas o uso do parceiro Revenant oferece suporte suficiente para tornar a experiência mais acessível a quem não faz parte da comunidade mais hardcore do estilo. Apesar dos problemas, há conteúdo e profundidade suficientes para garantir longas horas de exploração e diversão aos fãs do gênero.
Nota: 8 / 10
Code Vein II está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC (Steam).
*Agradecimentos a Bandai Namco pelo envio antecipado do material.
*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não remete necessariamente a posição do ANMTV*
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