
Sendo um residente de Salvador, estive presente no Festival de Cultura Japonesa Bon Odori 2025 representando o ANMTV e, em minhas andanças pelo evento, me deparei com uma barraquinha onde estavam sendo vendidos alguns quadrinhos e outras peças interessantes. Na mesa, observei vários exemplares de uma revista chamada Areia, mas estaria mentindo se falasse que ela me chamou a atenção desde o início. Não foi o caso.
O que saltou aos meus olhos, foi a famosa HQ do Deadpool onde ele mata todo o universo Marvel. Sempre achei esse conceito meio esquisito, e muitos falam mal dela, mas eu tinha curiosidade em ler, só que infelizmente – ou felizmente – ela estava com um preço não muito interessante para mim. Diante disso, peguei uma ‘Areia’ e dei uma folheada descompromissada. Neste momento sim, me vi intrigado pois estava vendo Salvador em suas imagens. Ruas, forma de falar e até o metrô estavam presentes. Diante do deslumbre, comprei.
De autoria do Bruno Marcello, a arte da HQ possui um estilo semelhante a aquarela, belo artisticamente falando e com uma aparência de pintura viva. O enredo é singular e funciona muito bem sozinho, como se fosse um one-shot, mas seria muito interessante acompanhar uma sequência desta história futurista.
Como dito anteriormente, a trama ocorre em Salvador, muitos anos no futuro. E, neste cenário, a humanidade simplesmente não existe mais. Porém, não nos é informado o motivo. Uma pandemia? Uma grande guerra? Encontraram uma forma de sobreviver em outro planeta? Ficaremos com esse questionamento eternamente em nossas mentes. Bem, guerra eu não acredito que tenha acontecido pois a cidade está intacta. Seus prédios permanecem em pé e suas ruas continuam da mesma forma, e quem está deixando tudo em movimento? Robôs, androides e inteligências artificiais. Os humanos se foram, mas suas criações continuam perambulando pelas ruas da capital baiana, teoricamente livres.

Somos então apresentados a uma androide com aparência humana, que está em busca de uma pintura. Nova no lugar, a moça busca por informações e vai conhecendo diversos tipos e modelos diferentes de robôs que habitam a nova Salvador. Muitos destes, inclusive, possuem aparências bem conhecidas do mundo nerd, tais como Optimus Prime; uma Tartaruga Ninja e até o Godzilla. Mas também há espaço pro nosso folclore, como três robôzinhos inspirados no Saci Pererê.
Com uma história simples, Bruno consegue cativar nossa atenção com um pouco de tudo: comédia, aventura, ação e reflexões sobre nossa sociedade atual. Sem dúvidas, seria muito bom ver uma segunda edição de Areia e o que mais esta Salvador do futuro pode oferecer. Afinal, o que houve com os humanos? Quem mantém estes robôs em pleno funcionamento? Quem está governando os países? Ou simplesmente não existem mais governos e as máquinas fazem o que bem entendem? Inclusive, nossa heroína reforça a liberdade da máquina “somos livres“. Não há regras. Isso me intriga ainda mais.
Areia é um ótimo título para mostrar a potência de nossos quadrinistas e como existem materiais muito bons circulando nas diferentes regiões de nosso país e que merecem mais reconhecimento. Por falar nisso, aproveitem e leiam minha análise sobre outro quadrinho nacional que está sendo lançado pela editora Taverna do Rei: Forma ou Consciência.
Nota: 9,5/10
Areia pode ser encontrada para compra online.
*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não remete necessariamente a posição do ANMTV*
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