Time Paradox Ghostwriter é incrível e totalmente injustiçado

Por João Gabriel em

Shueisha / Divulgação

Time Paradox Ghostwriter. Esse é o nome de um mangá que teve uma curta passagem pela ilustre Weekly Shōnen Jump em 2020. E sim, quando digo “curta passagem” quero dizer: foi cancelado.

Escrito por Ichima Kenji e ilustrado por Tsunehiro Date, na história, acompanhamos Teppei Sasaki, um jovem adulto, que sonha em trabalhar como mangaká na, incrível, Weekly Shōnen Jump. Infelizmente, todos os seus storyboards para one-shots são recusados pelo seu editor-chefe pois suas histórias não tem nenhuma originalidade. Prestes a desistir de seu sonho, algo totalmente incomum acontece: um raio atinge o microondas de sua casa. Esse que acaba trazendo uma edição da Weekly Shōnen Jump de 2030, ou seja, de 10 anos no futuro.

Nesta edição, uma série intitulada White Knight fazia sua estreia. Após ler, Sasaki fica encantado e emocionado com a qualidade e desenvolvimento da história em seu primeiro capítulo. Achando que era um sonho, ele decide fazer um one-shot e levar para a Shueisha. Todos os editores ficam encantados com a história e decidem serializá-la imediatamente na revista. Infelizmente, ele ainda não sabia que White Knight não era apenas um sonho, mas um mangá que realmente existiria no futuro e que já estava em processo de produção por Itsuki Aino.

Hoje (30), faz exatamente 1 ano que a obra foi cancelada pela editora Shueisha e impediu o desenvolvimento de um ótimo mangá. Como forma de um tributo, estarei falando um pouco sobre destacando os muitos pontos positivos (sem deixar também de falar de alguns pontos negativos).

Venha comigo conhecer Time Paradox Ghostwriter.

História

Serializado entre 17 de maio e 30 de agosto de 2020, Time Paradox Ghostwriter teve apenas 14 capítulos de uma incrível premissa misturando ficção científica, viagem no tempo, linhas do tempo, paradoxos com a vida cotidiana de um mangaká. Se fosse pra comparar, acho que o mangá é uma junção de Bakuman Steins;Gate.

Time Paradox Ghostwriter (Escritor Fantasma do Paradoxo Temporal, em tradução literal) é uma história de um gênero não muito comum nas páginas da Weekly Shōnen Jump, que tem uma grande preferência por títulos de ação (tendo algumas excessões) e isso chama bastante a atenção dos leitores que acompanham a revista semanalmente.

Como escrito na sinopse, Teppei Sasaki é um aspirante a mangaká que recebe em sua casa uma edição do futuro da Weekly Shōnen Jump após seu microondas ter sido atingido por um raio. Com todas as obras nesta edição sendo totalmente inéditas, numa delas, que fazia sua estreia, lhe chama a atenção: White Knight, escrito e ilustrado por Itsuki Aino. Um clássico mangá shōnen, mas com uma incrível e emocionante história e personagens tão cativantes que ele nunca conseguiria criar sozinho.

Após ter todos seus storyboards recusados diversas vezes por Kikuse, seu editor responsável, ele acredita que seu cérebro finalmente conseguiu criar algo profundo, original e, principalmente, que toda a humanidade pudesse aproveitar durante um sonho. Como era de se esperar, a editora aceita publicar o mangá sem hesitar nas páginas da revista e assim começa a jornada de Sasaki serializando um mangá semanalmente.

Shueisha / Divulgação

Se a história parasse por aí e seguisse com a premissa de um simples mangá sobre o dia a dia de um mangaká, com certeza, não seria algo tão diferente de Bakuman e outras obras do gênero. Felizmente, ou infelizmente nesse caso, o autor criou uma obra um tanto inusitada.

Sasaki, enquanto comemorava a realização de seu sonho junto da família e amigos, nem imaginava que estava plagiando um mangá que realmente existiria no futuro e que já estava sendo idealizado por sua criadora, Itsuki Aino, no presente. Apenas ao chegar em casa, ele encontra diversas edições do futuro da Weekly Shōnen Jump contendo capítulos inéditos de White Knight e percebe seu grande erro.

Mesmo hesitante em continuar a desenhar White Knight pelo fato de estar plagiando uma história, Sasaki decide continuá-la para dar chance dos leitores daquela linha do tempo conhecerem essa incrível obra já que não poderão mais conhecê-la no futuro. Tudo parecia estar dando certo, até o dia em que acaba sendo confrontado por Itsuki Aino, a verdadeira mente por trás de White Knight, que ainda é uma estudante do colegial naquele período do tempo.

Essa é a história de Time Paradox Ghostwriter, mas, mesmo com uma incrível premissa que consegue se estender muito mais em poucos capítulos, um simples fator da trama foi decisivo para seu cancelamento: o tema sobre plagiarismo. Plágio é crime e dá cadeia. O foco da história é Sasaki mudando o futuro, mas não posso mentir que o plágio também é bastante discutido e apresentado na obra.

Shueisha / Divulgação

Sasaki em nenhum momento aparenta gostar de estar copiando o trabalho de Aino, mesmo ela não sabendo disso (inclusive, ele decide dar todo o dinheiro ganho com White Knight para ela mesmo estando endividado), mas não foi o bastante para convencer os leitores japoneses que passaram a dar baixas classificações e, pior, a não comprar os volumes.

Mas como já mencionei, o foco da história está longe de ser o plágio. Além de não incentivá-lo, a história se divide em duas partes. A 1ª vai até o capítulo 7 e destaca o dia a dia de Sasaki trabalhando em White Knight, enquanto interage com seus assistentes, incluindo Aino, e lida com a pressão de “reproduzir” essa incrível obra no presente. A 2ª se estende até o último capítulo e tem início quando Sasaki descobre que Itsuki Aino, da linha do tempo alternativa, morreu em 2031 deixando o White Knight inacabado e que a Aino, de sua linha do tempo, também iria morrer deixando Anima, seu mangá, inacabado. Seu objetivo, então, passa a ser impedir a morte de Itsuki Aino utilizando a viagem no tempo (sem mais spoilers rs).

Nesta 2ª parte, a história consegue desenvolver muito bem (dentro das limitações de capítulos restantes até o cancelamento) a questão da viagem no tempo. Sasaki consegue se comunicar com um ser misterioso do futuro que lhe ajuda a tentar impedir que Aino morra precocemente, sem concluir o seu sonho de criar (e finalizar) um mangá que toda a humanidade possa aproveitar e apreciar, usando até da viagem temporal.

Outra coisa interessante na obra são White Knight e Anima (mangás fictícios dos personagens) em si. Pouco nos é mostrado sobre a trama de ambos, mas esse pouco é o suficiente para deixar todos os leitores intrigados com esses “mangás maravilha”. Além de que é muito interessante ver o processo de produção, a pressão para manter uma boa posição no ranking semanal, negociações para anime e o sucesso de uma história com vendas altíssimas e muitas reeimpressões.

Infelizmente, nada disso foi o suficiente para manter a obra…

Personagens

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Os personagens de Time Paradox Ghostwriter, mesmo em poucos capítulos, são muito bem desenvolvidos. Lendo a obra, dá para perceber que o autor havia preparado um background para cada personagem, mas com o risco iminente do cancelamento muita coisa foi cortada. No fim, os personagens mais desenvolvidos foram Teppei Sasaki e Itsuki Aino.

Teppei Sasaki desde criança amava mangás e sonhava em publicar uma história na Weekly Shōnen Jump. Por tal motivo, ingressou numa escola especializada em mangá logo cedo. Apesar de ter um bom traço, ele não consegue criar histórias únicas, ou seja, que apenas ele pudesse criar. Quando começou a desenhar White Knight, ele passou a sentir uma imensa pressão em seus ombros tendo que fazer uma versão digna da original.

Itsuki Aino conheceu os mangás após encontrar um senhor de idade numa praça. Lá, esse senhor vendia uma imensa coleção de edições da Weekly Shōnen Jump e acabou despertando o sonho de Aino de se tornar uma mangaká ao contar que ele também já fora um. Ela sonha em criar um mangá que todos possam apreciar, White Knight nasceu daí.

Outros personagens, como os assistentes e o editor de Sasaki, também são desenvolvidos, mas não tanto quanto deveriam. Também existe um limite do que se pode ou não fazer em apenas 14 capítulos.

Também gostaria de ressaltar a incrível arte de Tsunehiro Date, ilustrador do mangá. Ela é simplesmente maravilhosa e detalhada, além de ser nem um pouco confusa (como a de alguns autores cof cof). Quero muito ler mais obras desenhadas por ele!

Final Verdadeiro

Shueisha / Divulgação

Em seu 14° capítulo, a história consegue nos dar uma apressada e satisfatória conclusão do objetivo principal, mas mesmo tendo um final “fechadinho” deixa aquele gostinho de quero mais…

Felizmente, a história não acabou ali! Um epílogo especial de 33 páginas foi publicado junto do 2°, e último, volume da obra no Japão. A história desse capítulo se passa 10 anos após o “final” da obra. Para mim, esse capítulo fecha melhor a trama original e é o “final verdadeiro”.

Se não quiser spoilers, pule para o fim do tópico!

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Sasaki, após parar o tempo por mais de 12.000 dias, consegue criar a versão perfeita e definitiva de White Knight e é capaz de derrotar o mangá Anima, escrito e ilustrado de Itsuki Aino. Com isso, ele impede que ela morra de exaustão tentando sempre ganhar de seu “sensei”. Esse foi o final mostrado ao público no 14° capítulo, mas e depois?

Neste epílogo, descobrimos que Sasaki (agora com 37 anos) terminou White Knight no auge de sua popularidade 5 anos após ter salvado Aino de seu fim trágico. Após isso, ele decidiu escrever histórias que ele sentisse prazer em escrever e, realmente, fossem dele. Felizmente, ele conseguiu aprovação de três histórias: God Merger, Zone 300Mobius Planet. Infelizmente, todas elas foram canceladas pela editora por terem sempre ranqueado na última posição (assim como TPGW rs).

Enquanto isso, Aino (agora com 29 anos) finalizou Anima também no auge de sua popularidade e conseguiu emplacar, logo em seguida, um novo sucesso. Junto disso, ela também se casou com Akaishi Genki (ex-assistente de Sasaki e mangaká na Weekly Shōnen Jump).

Também vemos o futuro dos outros dois assistentes de Sasaki: Igarashi Hajime e Yamane Jirou. Hajime também virou um mangaká na Weekly Shōnen Jump e Yamane virou um assistente profissional.

Shueisha / Divulgação

No final do capítulo, Sasaki devolve todo o dinheiro que ele ganhou com White Knight para Aino e, aparentemente, consegue criar uma história de sucesso depois de 5 anos de cancelamento (rs). Fico muito feliz que a Shueisha permitiu a publicação deste epílogo dando uma melhor finalização a obra, além de reforçar o final feliz dos protagonistas.

Time Paradox Ghostwriter é incrível e totalmente injustiçado. Uma ótima premissa e desenvolvimento de um mangá foi desperdiçado por um simples fator secundário. Fico feliz de ter tido a oportunidade de acompanhar esse mangá semanalmente e tido um bom final.

Shueisha / Divulgação

Deixo aqui meu apelo para que todos leiam TPGW, são apenas 14 capítulos que podem ser lidos numa única tarde relaxante (eu mesmo já li 3 vezes haha). Tentei evitar o máximo de spoilers enquanto indicava a obra, espero que eu tenha despertado o interesse de vocês!

Time Paradox Ghostwriter, até o prezado momento, é inédito no Brasil estando disponível na versão digital americana publicada pela editora Viz Media (à venda na Amazon), no Manga PLUS (apenas os capítulos 1, 2, 3, 12, 13 e 14 em inglês) e em traduções não oficiais em português.

Muito obrigado, Ichima Kenji e Tsunehiro Date.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não remete necessariamente a posição do ANMTV*
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