Sing Yesterday for Me e o desencanto da vida adulta

Por Williams Gomes em

Shueisha / Doga Kobo / Divulgação

Eu, sinceramente, sinto muito caso você, caro leitor, tenha menos de 18 anos. Não, não me leve a mal, calma! A verdade é que você tem todo um mundo pra descobrir – e cara…que mundo! – porém eu preciso te avisar que esse momento não será necessariamente seu. Na verdade, esse será um texto pra uma galera beirando o Old School, rs. Bem, dito isso, podem entrar, Senpais esse texto é pra vocês!

Vejamos, você nasce, cresce, daí entra na escola, passa cerca de 18 a 20 anos entre a alfabetização e a faculdade – E eu nem estou contanto com os anos de cursinho e repetência viu – até que finalmente se forma, pega o diploma, vai pro mercado de trabalho e a sua vida enfim floresce. Certo? Bem… se você cresceu sabendo o que queria, sim. Do contrário, chegamos ao ponto de partida de uma jornada que pouco se discute, seja em conversas de família ou em animes, mas que Sing “yesterday” for Me faz questão de, em cada episódio, esfregar na nossa cara: afinal, como lidar com a vida adulta após deixar a estabilidade de uma sala de aula sem saber quem de fato você é e o que quer fazer?

Shueisha / Doga Kobo / Divulgação

Mas antes que você queira responder ou, assim como eu, comece a pensar que Sing “Yesterday” for Me” tem esse nome em razão da música dos Beatles, vamos a algumas informações básicas:

O anime em questão, é uma adaptação do mangá Sing “yesterday” for Me (Yesterday o Utatte), escrito em 1997 por Kei Toume para a revista Business Jump. Em seguida, após mudar para a revista Grand Jump, a obra teve sua finalização alcançada em 2015, após 11 volumes publicados. Quanto ao título? lamento informar, mas ele não tem nada a ver com “Yesterday” dos garotos de liverpool. Na verdade, ele foi inspirado por uma canção de outro conjunto. O grupo de rock japonês RC Succession.

Agora, voltando ao questionamento do primeiro parágrafo, é assim que somos apresentados a Rikuo Uozumi, um universitário recém formado, que apesar de já estar com seu diploma, encontra-se inseguro – e por vezes até perdido – quanto a direção para a qual apontou sua vida. E com isso, que acaba trabalhando meio período em uma loja de conveniências para poder pagar as contas.

Aqui temos um cenário bastante recorrente para algumas crianças dos anos 90/2000 e que hoje, em sua fase adulta, encontram ao tentar trilhar o seu caminho para o mercado de trabalho. A visão de fracasso e o sentimento de deslocamento social, apresentados no anime, é existente e passa a ser cada vez mais frequente se fizermos um breve paralelo com a vida real aonde precisamos lidar com o fato de vivermos em uma época tomada por redes sociais que pregam a constante beleza de uma vida ocupada e bem sucedida.

Ao acompanhar o anime, torna-se interessante ver a delicadeza em abordar assuntos tão costumeiros da vida de quem “já se governa” como as constantes rejeições amorosas, a falta de dinheiro para algo importante, os namoros ilusórios que nascem apenas para preencher o vazio de um dos lados – sem necessariamente existir amor ali-, o temido aluguel do mês, e os laços que o tempo desfaz  que podem, ou não, terminar em uma singela amizade. E mais! tudo isso embrulhado em uma ambientação nostálgica – afinal, a obra original é dos anos 90 – e que remete a época da virada do milênio, com cabines telefônicas em vários lugares, telefones residenciais de disco, televisões de tubo e uma moda bastante característica do período.

Mas é verdade que nem tudo são flores em Sing yesterday e que existem alguns pontos a serem melhorados, que vão desde o pouco aproveitamento de alguns personagens secundários bastante carismáticos e as suas vidas– sim, eu estou falando do Kinoshita – até o fato de a história, em muitos momentos, ficar um pouco arrastada e as decisões de um dos protagonistas demorarem tanto tempo para serem tomadas, principalmente pelo fato da obrar tratar disso, DECISÕES. Acredito que inclusive esses sejam um dos motivos para que Sing Yesterday seja tão desinteressante para alguns espectadores. Há quem diga, inclusive, que essa nada mais é do que uma visão pessimista de um estágio da vida.

Shueisha / Doga Kobo / Divulgação

No entanto, é precisamente nessa visão mais melancólica da maturidade, aonde pouco se vê sorrisos largos (com exceção das cenas da Haru), de poucas músicas de fundo para quebrar o silêncio constrangedor e as constantes expressões mais serias, que faz de Sing “Yesterday” for Me um “anime para adultos”, mas sem a conotação que estamos acostumados a associar. Afinal de contas, sabemos que nem tudo é tão colorido e feliz como a maioria das produções que consumimos nos mostram, e que sortudo é aquele(a) que já nasce sabendo o que quer fazer da vida.

Enquanto isso, nós, meros mortais que acabamos nos perdendo entre o último dia de aula da escola/faculdade e a última noite, precisamos, depois de muito respirar e nos autoanalisarmos, nos reinventar e buscar um novo caminho que, por mais que leve um certo tempo, nos faça desabrochar enquanto indivíduos.

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