Romantizando o bullying em Don’t Toy With Me, Miss Nagatoro

Kodansha / Telecom Animation Film / Divulgação

Não é segredo pra ninguém que o perfil do jovem e tímido garoto nerd viciado em jogos de RPG e filmes picantes, recorrentemente é usado em alguns ­­animes de cada temporada de lançamentos; e por mais zombeteiro que seja a maneira com a qual esse perfil é geralmente apresentado e tratado ao longo das obras, sua recepção sempre costuma ser muito tranquila e bem aceita pelo público em geral — Minoru Mineta que o diga. Mas o que acontece quando seus idealizadores perdem a mão na hora de zombar e transformam uma brincadeira em algo desconfortável de assistir? Bem, senhoras e senhores, com vocês: Don’t Toy With Me, Miss Nagatoro (Ijiranaide Nagatoro-san).

A sinopse é categórica: Nagatoro é uma menina do primeiro ano de sua escola e que adora fazer bullying com seu Senpai. Mas ele aceita isso, mesmo depois de ter passado por todos os tipos de situações humilhantes e embaraçosas, porque ele está apaixonado por ela. E Nagatoro, por sua vez, toma tais atitudes não talvez por ser maldosa, mas por provavelmente estar apaixonada. Muito lindo, não é? Claro! (Se você tiver uma autoestima baixíssima ou nenhuma responsabilidade emocional.)

A produção da Telecom Animation Film começa logo em seus primeiros minutos do episódio de estreia, apresentando uma caótica construção de atmosfera que confunde o seu público na hora de dizer a que veio. E mesmo ao se estabelecer, faz da chegada a esse processo, um caminho tortuoso de se percorrer. Suas primeiras cenas com paisagens e uma trilha sonora amena, indicam um tom mais calmo e tranquilo ao anime. Tom esse que logo trata de ser quebrado por uma composição oposta a esta, aonde vemos uma ambientação escolar fechada, com diálogos e sons secos, sem qualquer música ao fundo e caracterizando neste momento da animação, uma atmosfera séria, tensa e até mesmo opressora quando vista pela perspectiva de um dos protagonistas. Um erro brutal, quando observado o que se sucede nas próximas cenas. Pois nesse momento vemos a interação entre Nagatoro e Senpai.

Não que haja algum problema em personagens femininas valentonas e irritantes — Particularmente falando, sempre me divirto com a garota totally bitch do rolê, quando esta é bem trabalhada em uma obra. No entanto, o problema neste começo de Don’t Toy With Me, Miss Nagatoro surge no fato de que todas as brincadeiras feitas por Nagatoro as custas do inseguro Senpai (intuito principal do anime), são comprometidas devido ao clima super intimidador construído no início do episódio, deixando assim, cada piada verbal e física de Nagatoro desconfortável de ser vista e o incomodo com o episódio, cada vez maior. A personagem feminina passa então de contraponto cômico ideal de cena para uma megera irritante que distribui humilhação gratuita sem nenhuma graça. Desta forma, a química entre os dois protagonistas é simplesmente desastrosa.

Essa tortura visual perdura por mais dois episódios até sentirmos o que seria uma brisa de alívio em seu quarto capitulo quando um pequeno time de comédia surge bem aplicado e — vejam só vocês — os personagens são separados durante a narrativa principal. E como numa explosão súbita de clareza sobre sua qualidade péssima, vemos a partir de seu quinto episódio, uma construção de personagens mais elaboradas, tanto em cenas individuais quanto em conjunto, aonde a relação dos protagonistas começa se desenvolver positivamente, bem como a comedia proposta pelo anime. Nesta altura da produção, a personalidade ousada de Nagatoro começa a se encaixar melhor em cena com a de seu parceiro de escola, deixando os momentos entre os dois menos agressivos e a própria garota, um pouco mais tragável, ainda que restando um sabor amargo no final de tudo, devido ao seu histórico de megera.

Em resumo, Don’t Toy With Me, Miss Nagatoro deixa e muito a desejar em sua apresentação inicial de personagens, mostrando uma garota maliciosa sem nenhum carisma suficientemente capaz de fazer o público se conectar com ela e um garoto extremamente travado sem nenhuma razão que justifique ao espectador a enxurrada de bullying recebida pelo mesmo, visto que, nenhuma resposta cabível a tal ocorrido será dada por protagonista, outro personagem ou mesmo os responsáveis pela animação. E Mesmo próxima a sua season finale, aonde vemos um leve amadurecimento da relação dos dois personagens principais acontecer, a ideia de que tudo não passa de uma forçada de barra para esqueçamos ou normalizemos o histórico de Nagato, é algo que paira no ar a todo momento.

Se Nagatoro é aquele colega de escola que você torcia pra não encontrar nos corredores com seu grupo, Senpai é com certeza, o tímido que você nunca quis ser para não se transformar em alvo de todos. Dois exemplos que nunca trazem boas memórias da época de escola e quem mesmo na vida adulta, podem deixar suas sequelas.

Don’t Toy With Me, Miss Nagatoro está disponível no brasil no catálogo da Crunchyroll.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não remete necessariamente a posição do ANMTV*