O legado das garotas mágicas

Por Williams Gomes em

Shaft / Divulgação

Convenhamos, caro leitor, todo mundo tem um anime ou um desenho, qualquer que seja, que tem um espaço garantido lá no coração e que, mesmo depois de tantos anos após a infância, continua amando como se fosse o primeiro dia de contato com a obra. O meu, sem sombra de dúvidas é Digimon Adventure (1999). Porém, não será dos monstrinhos digitais que falarei hoje. Na verdade, será de um gênero de anime ligeiramente diferente de Digimon, mas que possui algumas perolas produzidas que, apesar de não estarem no primeiro lugar no pódio de animes do meu coração, com certeza ocupam a segunda posição e habitam igualmente na minha memória. Eu estou falando do Mahou Shoujo e as suas deslumbrantes garotas mágicas.

Acredito que a maioria de vocês já saiba o que é o Mahou Shoujo, mas caso você tenha caído de paraquedas nesse artigo e tenha vivido embaixo de uma pedra ou tenha se perdido numa ilha deserta nos últimos 30 anos, vamos a uma breve contextualização.

Mahou Shoujo é o termo japonês usado para Garota Mágica e que também dá nome ao subgênero derivante do Shoujo (um gênero voltado para as garotas, mas que qualquer um pode apreciar). Temos como exemplos mais conhecidos dessa vertente: Sakura Card Captors (1998) e Sailor Moon (1992).

Essas meninas que adquirem ou já nascem com os seus super poderes, são o ápice da fofura e do estilo num lugar só. E quem foi criança entre os anos 90 e 2000 sabe o quão popular essas garotas se tornaram e influenciaram em nossos gostos, seja naquela época por desenhos, ou hoje, em nossa moda e preferencias musicais.

Em um cenário otaku como o da década de 90, tomado por guerreiros musculosos, que carregavam armas pesadas e conquistaram a atenção de vários garotos (e garotas, por que não?) ao redor do mundo, a presença de sakura e companhia trazia em suas asas mágicas uma brisa de alívio para várias meninas (e meninos, tutupom) que não sentiam tanto prazer em batalhar corpo a corpo mas que além das roupas que provavelmente todos queriam ter, adoravam a ideia de um dia, em futuro não muito distante, tornarem-se um defensor com poderes mágicos.

Bem, e apesar dessas obras serem eternas e suas personagens nunca envelhecerem. As crianças daquela época cresceram e levaram essas meninas consigo no coração. O resultado desse extraordinário contato, é a presença dessas garotas mágicas e suas referências nos mais diversos cenários da cultura Pop.

Seja na moda, como inspiração de coleções para marcas como a Louis Vuitton e Sorry, I’m not.

Ou servindo de referência em outras bolhas sociais, como no caso da cultura LGBTQIA+ e o seu cenário Drag com suas polídas makes e figurinos como o da drag queen Kim Chi.

Garotas Mágicas do Brasil

E apesar de estarmos separados por um continente, nossas terras tupiniquins não ficaram livres da poderosa influência do Mahou Shoujo. Atualmente, são várias as produções que referenciam nossas garotinhas mágicas em sua estética. Isso vai desde o seguimento literário até a produção de vídeo clipes, no meio acadêmico e até nas histórias em quadrinhos, como através do cearense Heitor Pinheiro da Costa, com o seu icônico “Manual prático da Garota Mágica”, de 2017.

Reprodução.

No campo da moda nacional, o mahou shoujo eventualmente surge como inspiração para a nova geração de artistas do ramo, tendo como referência Fernando Cozendey e sua coleção para a “Casa de Criadores”, em 2019, e até mesmo nas animações como Super Drags, de 2018, idealizado por Anderson Mahanski, Fernando Mendonça e Paulo Lescaut. Produzida pela Combo Estúdio, com distribuição pela Netflix e com a icônica participação na dublagem da drag Pabllo Vittar.

E por falar em Pabllo, não podemos esquecer a mais nova parceria musical entre a própria, Luiza Sonza e Anitta em “Modo Turbo”. Aonde, para compor o seu visual, a drag recorreu ao seu intenso contato com os animes — e por tabela, as garotas mágicas. Olha esse cetro!

Bem, se Mitsuteru Yokoyama tinha alguma ideia do que a adorável “Sally, a Pequena Feiticeira” iria desencadear lá em 1966, nós não sabemos. No entanto, seu legado foi deixado como uma semente aonde o tempo tratou de fazer crescer e permitir o surgimentos de várias ramificações de sua proposta. Seja em squads como o de Sailor Moon, de uma forma mais fofa como Sakura ou embrulhada em uma embalagem bem dark como Puella Magi Madoka Magica (2011). O fato é que, essas garotas junto com seus mascotes fofos e suas saias cheias de babados, envolveram e seguem envolvendo suas vítimas ao longo dos anos – e nós adoramos isso. Essa magia foi tão grande que transcendeu as telas e vive hoje personificada em cada pessoa que teve contato com ela numa certa manhã, na sala de casa. Sim, a fantasia do Mahou Shoujo existe e vive em meninas e meninos mágicos da vida real, que replicam essa encanto das mais  diversas configurações possíveis. Cada um com seu próprio poder e com suas próprias ferramentas mágicas.

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